quinta-feira, 5 de julho de 2012

O segredo é que eternamente me escondo

Você viu minhas garras e observou meu corpo tremer em calafrios, criança, mas não soube das minhas unhas quebradas nem sentiu correr por tua espinha o meu medo. Só eu sei do assombro que se espalha no chão batido daquela rua, e por isso mesmo só eu compreendi a necessidade de me fechar em minha segunda grossa casca. Você crê ter conhecido, mas eu fui a única que estendi o pé e pisei no barro. E melei a sola. E esmaguei os pedregulhos. Tua posição foi a de um espectador que acha que sente, mas só observa. É tudo despertar de sentimento, é tudo parto de contemplação, parte da arte que é interpretar. E interpretar não é provar da essência, mas sim dos conceitos. Você não percebeu das sombras que se ergueram e tocaram meus dedos, meu punho, meu cotovelo, e assim, tão sorrateiras, subiram-me até o pescoço. Você não sentiu o gosto do ar podre penetrar em tua garganta como eu senti, a ânsia de vômito de encher o esôfago, a náusea que não poderia ter vindo em hora mais imprópria tomar-te o estômago e convulsionar. Acima de tudo, não sentiu impor ao cérebro o urgente e necessário refrear do asco. Ninguém tem o direito, ou dever, ou a sensibilidade para ver meu lanço. Você pensa que sabe o que é contorcer a alma, criança? Pois tente conter o esfolamento do âmago sob duas camadas de pele. Dessas couraças só eu entendo. Percebe as lágrimas que eu deixo doerem por trás das olheiras? Ou a vermelhidão que se esparrama pela esclera? Ou o soluço que engasgo? Não, não. Essas são sutilezas que não transparecem, que não se mostram. E que eu não intenciono expor. Façam-me outras máscaras e outras epidermes. Porque ao atravessar aquela rua e deixar para trás a escuridão, impregnou-se em mim o caos que o pó amassado por pés continha, que o esgoto deixava escapar. O pisar foi forte. O pesar, profundo. E logo eu, logo eu que tanto já me faço reviravolta e falta de nexo ou sanidade, fui me fazer hospedeira. Não conheço santidade. Não conheço paz. E era virgem dessas loucuras, desses cortes ou cravar-as-próprias-unhas-na-pele, apesar de tudo. Aquela ruela pôs o cordeiro que sou em hiato – não há quem me arranque do meu enclausurar. Abro os lábios, agora focinho, arregalo os olhos, agora gigantes, solto o grito, agora uivo. Meu balido ficou naquele chão. E não há braços que enfrentem minhas patas, não há força que supere minha revolta, não há faca afiada o suficiente para cortar minha garganta de lobo e exibir meu pescoço de moça. Foi-se o tempo.

Da sensibilidade e paciência sobre a qual eu poderia escrever e descrever meu estado, mas não o farei porque gosto de despertar interpretações e o subjetivo é sempre o mais bonito.


O silêncio do som. Foi o que eu descobri entre os trovões da madrugada passada, amor. O silêncio do som. Quando a luz iluminou o quarto e no espelho, durante o meio segundo em que o clarão permaneceu intacto, apreciei meu rosto refletido. As olheiras cansadas, a culpa nos ombros pesados, o medo nos lábios comprimidos. O silêncio do som. Quando a solidão nas folhas espalhadas pelo chão saltou à minha vista e eu percebi que o que tão freneticamente leio e escrevo me preenche muito pouco. Em verdade, tudo isso que liberto é perca. Não há volta. Eu me deixo escapar para ver se me aliviando através do literário a coisa toda melhora e o reflexo no vidro ganha um ar mais bonito. Mas não é assim que funciona. O silêncio do som. Quando meus dedos gelados buscaram ninho sob os lençóis apesar de eu continuar ali, sentada no chão, imóvel e focada na janela açoitada pelos pingos. Uns três apostaram corrida e sabe, amor, sabe quem ganhou? O meu choro que chegou ao assoalho antes de tudo, até mesmo antes do meu primeiro soluçar. Eu sempre soluço antes das lágrimas, mas, ontem, não. Foi o silêncio do som. Enquanto digito, enquanto bato as teclas, enquanto pressiono os pontos e vou me dizendo que isso tudo é mentira de poeta. O que sei que não é. O silêncio, o silêncio daquela trovoada que foi a única testemunha, o silêncio das minhas cartas jamais remetidas, o silêncio dos meus olhos sem vida. O silêncio que eu carrego no sobrenome, o silêncio da minha própria boca, o silêncio do meu respirar. Silence of the sound. Pássaro que não pia consegue levantar vôo e, se consegue, é capaz de suportar atravessar a tempestade que não para de pesar na chuva? Eu estou caindo. E o mundo é mudo.