O silêncio do som. Foi o que eu descobri entre os trovões da madrugada passada, amor. O silêncio do som. Quando a luz iluminou o quarto e no espelho, durante o meio segundo em que o clarão permaneceu intacto, apreciei meu rosto refletido. As olheiras cansadas, a culpa nos ombros pesados, o medo nos lábios comprimidos. O silêncio do som. Quando a solidão nas folhas espalhadas pelo chão saltou à minha vista e eu percebi que o que tão freneticamente leio e escrevo me preenche muito pouco. Em verdade, tudo isso que liberto é perca. Não há volta. Eu me deixo escapar para ver se me aliviando através do literário a coisa toda melhora e o reflexo no vidro ganha um ar mais bonito. Mas não é assim que funciona. O silêncio do som. Quando meus dedos gelados buscaram ninho sob os lençóis apesar de eu continuar ali, sentada no chão, imóvel e focada na janela açoitada pelos pingos. Uns três apostaram corrida e sabe, amor, sabe quem ganhou? O meu choro que chegou ao assoalho antes de tudo, até mesmo antes do meu primeiro soluçar. Eu sempre soluço antes das lágrimas, mas, ontem, não. Foi o silêncio do som. Enquanto digito, enquanto bato as teclas, enquanto pressiono os pontos e vou me dizendo que isso tudo é mentira de poeta. O que sei que não é. O silêncio, o silêncio daquela trovoada que foi a única testemunha, o silêncio das minhas cartas jamais remetidas, o silêncio dos meus olhos sem vida. O silêncio que eu carrego no sobrenome, o silêncio da minha própria boca, o silêncio do meu respirar. Silence of the sound. Pássaro que não pia consegue levantar vôo e, se consegue, é capaz de suportar atravessar a tempestade que não para de pesar na chuva? Eu estou caindo. E o mundo é mudo.
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