Você viu minhas garras e observou meu corpo tremer em calafrios, criança, mas não soube das minhas unhas quebradas nem sentiu correr por tua espinha o meu medo. Só eu sei do assombro que se espalha no chão batido daquela rua, e por isso mesmo só eu compreendi a necessidade de me fechar em minha segunda grossa casca. Você crê ter conhecido, mas eu fui a única que estendi o pé e pisei no barro. E melei a sola. E esmaguei os pedregulhos. Tua posição foi a de um espectador que acha que sente, mas só observa. É tudo despertar de sentimento, é tudo parto de contemplação, parte da arte que é interpretar. E interpretar não é provar da essência, mas sim dos conceitos. Você não percebeu das sombras que se ergueram e tocaram meus dedos, meu punho, meu cotovelo, e assim, tão sorrateiras, subiram-me até o pescoço. Você não sentiu o gosto do ar podre penetrar em tua garganta como eu senti, a ânsia de vômito de encher o esôfago, a náusea que não poderia ter vindo em hora mais imprópria tomar-te o estômago e convulsionar. Acima de tudo, não sentiu impor ao cérebro o urgente e necessário refrear do asco. Ninguém tem o direito, ou dever, ou a sensibilidade para ver meu lanço. Você pensa que sabe o que é contorcer a alma, criança? Pois tente conter o esfolamento do âmago sob duas camadas de pele. Dessas couraças só eu entendo. Percebe as lágrimas que eu deixo doerem por trás das olheiras? Ou a vermelhidão que se esparrama pela esclera? Ou o soluço que engasgo? Não, não. Essas são sutilezas que não transparecem, que não se mostram. E que eu não intenciono expor. Façam-me outras máscaras e outras epidermes. Porque ao atravessar aquela rua e deixar para trás a escuridão, impregnou-se em mim o caos que o pó amassado por pés continha, que o esgoto deixava escapar. O pisar foi forte. O pesar, profundo. E logo eu, logo eu que tanto já me faço reviravolta e falta de nexo ou sanidade, fui me fazer hospedeira. Não conheço santidade. Não conheço paz. E era virgem dessas loucuras, desses cortes ou cravar-as-próprias-unhas-na-pele, apesar de tudo. Aquela ruela pôs o cordeiro que sou em hiato – não há quem me arranque do meu enclausurar. Abro os lábios, agora focinho, arregalo os olhos, agora gigantes, solto o grito, agora uivo. Meu balido ficou naquele chão. E não há braços que enfrentem minhas patas, não há força que supere minha revolta, não há faca afiada o suficiente para cortar minha garganta de lobo e exibir meu pescoço de moça. Foi-se o tempo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário